Arquivo da categoria: Conversações e Pensamento Sistemico

Reflexões sobre o Amor e o Amar

Por que colocamos o amor num altar tão alto, que é necessário buscá-lo novamente para poder amar?

Para amar, basta ser. O amor não deve ser uma coisa que vamos ali e pegamos, colocamos numa sacola e depois pesamos para poder falarmos “eu amo você mais do que amo o outro ou a outra”. Como poderia?

O amor não é algo que está lá fora e que temos então que se viver experiências de transcendência para então sentir a permissão para poder exercê-lo.

O amor é a base que constitui nosso ser, e não estou falando algo esotérico, etéreo ou uma frase de prateleira. É cientfíco! Somos seres em que o amor compõe nossa matriz biológica. O amar enquanto emoção fundante da espécie humana, traduzida no cuidado e no acolhimento com a criança para que ela possa viver e na cooperação que nos permitiu desenvolver linguagem e cultura.

A abelha nasce na confiança de que haverá flores e nectar no planeta! Sua estrutura biológica está pronta para isso e as flores e o nectar estão lá! Os humanos nascem na certeza de que serão cuidados por alguém. Sua biologia é assim! Não é possível uma criança crescer sem ser vista e amada por alguém. Veja, não há raça humana sem isto, pois as crianças não viveriam. Nosso organismo, ou seja, nossa estrutura biológica só é assim por que temos que ser amados, por que assim como o nectar para a Abelha, o amor está aqui esperando por nós e é necessariamente manifesto por outro ser humano. Não há ninguém vivo que não tenha sido cuidado por outro ser humano, por que é necessário sermos cuidados para sobrevivermos.

Então esta é a condição fundante de nossa espécie, não está a venda, não precisa ser alcançada, não temos como pesá-la na balança. Não há como negociá-la, nem como aumentá-la para beneficiar alguém como o “nosso amor”. Tudo o que podemos fazer, é negá-lo! Negar esta nossa fonte, subvertendo nossa condição primeira, dizendo que inclusive nosso padrão é:

1 – Nunca fale com estranhos

2 – Vou fazendo amizade até conquistar a confiança de alguém

3 – OK, agora temos intimidade e eu posso amá-lo, ou não gostei dele e não vou amá-lo.

O amor nos constitue. Amar outro ser humano é natural, e é necessário para vivermos plenamente o nossa corporalidade humana, biológica e cultural.

Solilóquio sobre Explicação, Experiência e Erro

Reflexões a gatilhadas pela leitura do livro Cognição, Ciência e Vida Cotidiana de Humberto Maturana

Em nosso dia a dia, vivemos a vida mergulhados em experiências. A cada momento, temos uma nova experiência, mas enquanto a vivemos, não dizemos “estou vivendo uma experiência”. Apenas vivemos imersos naquilo que estamos fazendo.

Posteriormente ao ter-se vivido a experiência, podemos tecer comentários por sobre ela ou mesmo tentar explicá-la. Sim, diferente de outros animais (ao menos, até onde se sabe), nós seres humanos podemos além de observar a experiência enquanto acontece, também conseguimos criar explicações que tentam descrever a experiência que vivemos.

Um grupo de formigas por exemplo, ao carregar alimentos de um lugar para outro, apenas o fazem seguindo seus instintos e desejos. Depois do trabalho realizado, uma formiga não tem a possibilidade de falar à outra “Nossa, como estava pesada aquela folha hoje” ou “E a hora que bateu aquele ventão? Quase morri!”. Não, elas não podem (até onde se sabe rs). Nós seres humanos temos esta capacidade de meta-observação, ou seja, de poder observar o que vivemos, explicar a experiência e até mesmo refletir e conversar sobre as explicações que criamos para uma experiência.

Mas enquanto vivemos e estamos imersos numa experiência, não temos como diferenciar se o que estamos vivendo é certo ou errado. Apenas vivemos! O erro ou acerto, é um comentário que surge posteriormente a se ter vivido uma experiência, quando comparamos a explicação de uma experiência com outra. Não é possível comparar uma experiência com outra, o que comparamos são as explicações das experiências. Percebe como isto é liberador/libertador?! O erro não existe, até que se julgue! Não podemos viver nada como erro (ou acerto), apenas vivemos, guiados pelos desejos, sentires e “quereres” que são despertados em nosso ser biológico e cultural (biológico-cultural).

Temos mais dois detalhes importantes:

  • As explicações não substituem a experiência!
  • Podemos explicar a mesma experiência de diversas formas e novas experiências nos fazem reformular explicações de experiências do passado.

Temos a capacidade inclusive de explicar a mesma experiência de diversas formas! E a explicação que damos hoje ao sentirmos, por exemplo, dor na garganta é “estou gripado”. Vamos ao médico e descobrimos que na verdade trata-se de algum tipo de alergia. Depois podemos ter uma experiência espiritual ou transcendental e descobrir (ou criar uma nova explicação sobre aquela vivência) que na verdade se tratava de um mal da alma, ou um processo de somatização relacionada ao nosso dia a dia e a nossa psique. Seja qual for a explicação, a experiência não está mais lá e não é possível recuperá-la. Todas as explicações que criamos a posteriori ou que alguém cria para nós (um médico ou terapeuta por exemplo), servem para nós desde que a aceitemos como válida:

“As explicações são reformulações da experiência aceitas por um observador”

Se o médico disser “é gripe” e aceitarmos esta explicação, então aceitamos esse explicar e nossas emoções podem inclusive se alterarem. Se ele disser “é virose”, podemos não aceitar esta explicação e nosso emocionar-se será diferente. Se ele disser “é câncer”, provavelmente teremos um peso muito maior em nossa cabeça, por que se aceitamos a explicação de alguém em algum nível, podemos começar a agir no dia a dia e colocar estas explicações como lentes em nosso viver, e as palavras resgatam emoções que construímos ao longo de nossa vida.

Seja qual for ou quais forem as explicações aceitas, a experiência não está mais lá e vamos nos relacionando com novas experiências e com as explicações de outras experiências que conservamos como válidas dentro de nós. Estas explicações abrem novas possibilidades e também por muitas vezes nos limitam.

Alguém pode explicar: “Sofri muito em meu ultimo relacionamento amoroso e nos separamos” e isto criar emoções que “fecham” seu corpo quando surge a possibilidade de se relacionar novamente com outra pessoa. Note, é a explicação de uma experiência que está gatilhando emoções que podem vir a limitar seu viver neste momento. Depois de algum tempo, esta pessoa pode viver diversas experiências de auto-conhecimento, terapias, psicanálise e dizer: “Tive um relacionamento maravilhoso enquanto durou e a separação foi o ato mais amoroso que pudemos ter um com o outro” e, a partir deste momento, com a mudança de explicação, esta pessoa pode se sentir mais aberta a outros relacionamentos.

A experiência já ocorreu, mas as explicações surgem e vão nos modelando em nossos sentires e em nossas emoções. Mas veja novamente que liberador/libertador! Experiências que virão no futuro podem alterar a explicação que damos de algo que ocorreu no passado e nos causa dor, desde que estejamos abertos a novas experiências.

Constelações Familiares hoje em Sorocaba

Gostaria de convidar meus amigos(as) à participar e conhecer uma das melhores terapias que já presenciei, que acontecerá hoje (sexta 03/12/10), às 19h no Nataraja em Sorocaba! O evento de hoje conta com a direção de um dos maiores especialistas do assunto no Brasil, o terapeuta Almir Nahas.

A “Constelação Familiar” consiste em um método no qual um cliente apresenta um tema de trabalho e, em seguida, o terapeuta solicita informações factuais sobre a vida de membros de sua família, como mortes precoces, suicídios, assassinatos, doenças graves, casamenos anteriores, número de filhos ou irmãos.

Com base nessas informações, solicita-se ao cliente que escolha entre outros membros do grupo, de preferência estranhos a sua história, alguns para representar membros do grupo familiar ou ele mesmo. Esses representantes são dispostos no espaço de trabalho de forma a representar como o cliente sente que se apresentam as relações entre tais membros. Em seguida, guiado pelas reações desses representantes, pelo conhecimento das “ordens do amor” e pela sua conexão com o sistema familiar do cliente, o terapeuta conduz, quando possível, os representantes até uma imagem de solução onde todos os representantes tenham um lugar e se sintam bem dentro do sistema familiar.

É impressionante! Através dos representantes e a relação dinâmica de tempo, espaço e emoções entre ele, é possível ter um novo entendimento sistemico do que está ocorrendo na vida do paciente.

Participe uma vez! O evento de hoje é gratuíto para quem quiser participar como representante. Você também pode contribuir com até R$ 30,00 se desejar.

Veja o endereço e outras informações no site do Nataraja.

Noções sistemicas e leis gerais do cosmos a partir da Biologia Cultural

Ainda lendo o livro Habitar Humano de Ximena Dávila e Humberto Maturana, topei com um resumo das leis sistêmicas que ajudam a entender o operar dos seres humanos.

Na minha opinião, algumas dessas leis ajudam a entender o operar de qualquer sistema, em particular as leis # 3, 4 e 5.

Os sistemas não são em si, ou seja, eles só existem quando um observador o distingue, e este observador pode ser inclusive o próprio sistema ou alguém que está dentro ou fora dele. Vamos às leis sistêmicas:

O saber
Lei # 1: tudo o que é dito é dito por um observador a outro observador que pode ser ele próprio ou ela própria.

O fazer
Lei # 2: tudo o que é feito é feito por um ser humano no âmbito da antroposfera que surge com ele.

O suceder
Lei # 3: cada vez que num conjunto de elementos começam a se conservar certas relações, abre-se espaço para que tudo mude em torno das relações que se conservam.

O escolher
Lei # 4: a história dos seres vivos em geral e dos seres humanos em particular tem seguido e segue um curso definido em cada instante pelos desejos, pelas preferências, pelas ganas, pelas emoções em geral.

O operar
Lei # 5: todo o sistema humano e não humano opera perfeito quando opera; não existe a disfuncionalidade no operar de um sistema.

Estas leis foram retiradas do Apêndice I do livro Habitar Humano.

Eras psíquicas da Humanidade

Estou lendo atualmente o livro Habitar Humano, de Humberto Maturana e Ximena Dávila Yañez. Inicialmente o livro propõem um olhar sobre uma ensaio possível sobre a evolução do habitar humano em eras psíquicas.

Essas eras definem um emocionear contidiano que guiavam o viver humano. Obviamente que trata-se de uma evolução que ocorreu de forma sutil e gradiente.

Faço aqui então um descrição dessas eras e a tradução de um descritivo delas feitas pelo meu amigo Ignácio Muñoz, num “pizarron” aqui da Papagallis:

Era arcaica

Origem do Humano, na origem da família. “O amar era um suceder espontâneo”
Homo sapiens-amans amans, 3 milhões de anos

Era matrística

Expansão cultural em torno da unidade psiquica da existencia. O amar como conviver desejado. Isto começa a se perder com o surgimento da desconfiança do mundo natural.

Era do apoderamento ou apropriação

Origem do patriarcado ou patriarcalismo. Apropriação da verdade e veneração da autoridade. Atitude de acumular e possuir tudo, sem se importar com os outros. Ter a mesma coisa que os outros tem.

Era psíquica moderna

Origem do capitalismo. Expansão do pensamento científico e tecnológico. Dominio da autoridade e alienação no poder e no lucro. Teorias guiam o viver humano.

Era pós-moderna

Origem da dominação cultural da ciência, da tecnologia e do dinheiro. Tentação da onipotencia. Cegueira de ter a certeza que “sabemos que podemos fazer tudo o que imaginamos ser possível se operamos com as coerências do mundo que conhecemos.

Era pós-pós-moderna

Possível origem de uma cultura de bem-estar e da harmonia entre biosfera e antroposfera. Surgimento da reflexão e da ação ética consciente. O ver e o sentir a dor e o sofrimento na Bio-Antroposfera que vem na alienação da onipotência.

Fazendo conversações de grupos distribuídas com o Maestro Conference

Há algum tempo trabalho com facilitação de grupos de conversação usando ferramentas de conversação presencial tais como World Café, Open Space e conversações cibernéticas, onde grandes grupos podem se separar e terem conversas locais, para que depois possam realizar conversações transversais ou compartilhar as conversações locais com um grande grupo.

O pessoal da comunidade The World Café, apontou uma ferramenta como a melhor opção para este tipo de encontro e realizou um Café virtual piloto! Trata-se do Maestro Conference.

Compartilho aqui então um video retirado do site deles, que explica de um jeito bem fácil qual é o funcionamento conceitual da ferramenta:

Meu próximo passo e marcar uma sessão experimental com amigos. Se você estiver interessado em participar, por favor, deixe um comentário no meu blog e te informo desta sessão experimental!

Pré conceito pode ser bom?

Adaptação de um email que enviei pra meu grupo de estudos de Biologia Cultural.

Estava refletindo sobre nomear coisas, relacionamentos e pessoas.

Quando eu coloco um substantivo em algo, numa relação ou em alguém, acabo me relacionando com isto a partir de algum tipo de expectativa, mesmo que sutil.

Não digo uma expectativa grandiosa… uma sutil, mas que está lá, que não necessariamente gera sofrimento mas que acaba determinando a solidez que eu enxergo numa pessoa e no operar dela ou num relacionamento.

Não estou colocando isto como bom ou ruim, só dizendo como isto se passa comigo.

Vamos supor que tenho um amigo chamado Dalton (e tenho hehehehe)..

Quando digo “Dalton”, me vem uma imagem dinâmica dele à mente. E quando vamos nos encontrar pra alguma reunião, mesmo que sutilmente existe em mim uma espécie de “pré concepção” do Dalton que vou encontrar e da dinâmica que eu acredito que ele conserva. Isso é uma expectativa? Um pré conceito?

Se eu não tivesse esse pré concepção do Dalton que vou encontrar, será que eu iria ter o desejo de vê-lo?

Será que “conhecer” é distinguir algo ou alguém (e seu operar) e fazer guardar uma imagem disso em nós mesmos?

Reflexões de sexta para mim 🙂

Um artigo que aborda a questão da doença a partir do pensamento sistemico

Hoje tive a feliz surpresa de me deparar na Web com mais uma brasileira que trabalha com saúde a partir do pensamento sistemico e cita por muitas vezes Morin e Maturana.

É a fisioterapeuta Laura Patrício de Arruda que entre outros artigos escreveu este que aborda a questão da doença, chamado “O profissional da saúde e os dois lados da doença: da exclusão ao empoderamento do sujeito”

Entre os trechos que mais gostei é um que mexeu com um paradigma muito sutil em relação a questão da recuperação de uma doença, nesta frase do artigo:

“Partindo do pressuposto de que a doença implica, inevitavelmente, uma crise para o doente, sobretudo acerca do seu papel social, um processo de cura não pode ser somente um retorno linear a um estado anterior, mas sim um restabelecimento de uma nova harmonia, que compreende as cicatrizes do estar, ou do ter estado doente”

O Link original para o artigo

PDF armezado aqui no meu site

A história de cada um

Uma reflexão inacabada sobre como nossas histórias determinam nosso fazer.

Você já deve ter respondido algumas vezes a pergunta “Quem sou eu”. Pelo menos quando você preencheu o perfil do orkut não é mesmo?

As respostas que damos a esta pergunta, nunca dão conta de expressar tudo que realmente somos. Quando respondemos o que somos, na maioria das vezes lembramos da história da nossa vida para podermos explicar a partir daí o que somos no presente.

Quando olhamos para nosso passado, estamos na verdade olhando (no presente) para histórias ou narrativas que conservamos de nós mesmos. Lembra da história do seu primeiro beijo? Ou você se lembra da história do seu primeiro namoro? Sejam fatos pontuais ou eventos que duraram meses, sempre conservamos uma emoção e uma explicação sobre nosso passado. Essa explicação não é a experiência em si, é só uma explicação ou uma narrativa (cheia de emoção é claro) do que aconteceu. E uma explicação nunca substituirá uma experiência já que vivemos apenas o momento presente.

Nossa história está registrada em todo nosso corpo – na mente, em marcas, na nossa postura, na voz, na fala, no linguajear, no nosso emocionar de todos os dias – e nosso corpo é o “instrumento” que temos para manifestar nosso viver e para experimentar o fluir do viver. Estou falando de corpo no sentido mais amplo da palavra, contemplando então toda esta magnifica estrutura fisíca, mental e espiritual.

Geralmente temos uma explicação para cada marca ou característica do nosso corpo. Eu mesmo tenho um desvio na coluna e uma explicação para isso, uma história que conta como isso aconteceu, como eu me relacionei com isso durante minha vida ou qual é minha explicação holistica para o assunto.

Esse conjunto de narrativas de nossas vidas, determinam nosso comportamento no dia de hoje. Essas histórias conservam junto com elas valores e coerências que mantemos a cada nova experiência que vivemos. Então explicamos e justificamos nossos atos no presente, a partir de nossa coerência histórica. De alguma forma então, essas explicações que fazemos de nós mesmos nos limitam em cada ato presente. Nossos limites muitas vezes surgem a partir de alguma história/explicação/narrativa que nos explica e determina nosso jeito de ser.

Uma mulher é casada há 15 anos e tem sido uma pessoa super dedicada ao casamento durante todo este tempo. A história deste casamento bem sucedido que esta mulher conserva, faz com que ela seja uma mulher dedicada a seu marido, a ponto de abrir mão de fazer coisas que ela deseja para se dedicar ao casamento.
Então um dia ela descobre que o marido a trai já há 10 anos com outra mulher… com isso, a narrativa que ela conservava sobre sua vida muda e surgem a ela novas possibilidades de reflexão e ação.

Podemos então narrar nossa experiências de outras maneiras. Um fato novo surge e então temos uma nova dimensão de algo que se passou em nossa vida e a partir daí uma nova explicação surge para nós e abre novas possibilidades de ação e reflexão.

Se refletirmos sobre nossa vida, podemos também gerar espontaneamente novas explicações sobre nosso viver, que tiram nossos limites ou criam outros, mas ainda estaríamos vivendo nos relacionando com o presente a partir das lentes de nossas histórias de vida.

Esta reflexão está em aberto para mim. De qualquer forma, me pergunto e compartilho a reflexão:

  • É possível viver neste momento presente? É possível estar neste presente, na candura de uma criança que está começando seus passos, sua caminhada?
  • Quais são os limites que conservo conservando as histórias que conto sobre mim, da maneira que as conto?