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Solilóquio sobre Explicação, Experiência e Erro

Reflexões a gatilhadas pela leitura do livro Cognição, Ciência e Vida Cotidiana de Humberto Maturana

Em nosso dia a dia, vivemos a vida mergulhados em experiências. A cada momento, temos uma nova experiência, mas enquanto a vivemos, não dizemos “estou vivendo uma experiência”. Apenas vivemos imersos naquilo que estamos fazendo.

Posteriormente ao ter-se vivido a experiência, podemos tecer comentários por sobre ela ou mesmo tentar explicá-la. Sim, diferente de outros animais (ao menos, até onde se sabe), nós seres humanos podemos além de observar a experiência enquanto acontece, também conseguimos criar explicações que tentam descrever a experiência que vivemos.

Um grupo de formigas por exemplo, ao carregar alimentos de um lugar para outro, apenas o fazem seguindo seus instintos e desejos. Depois do trabalho realizado, uma formiga não tem a possibilidade de falar à outra “Nossa, como estava pesada aquela folha hoje” ou “E a hora que bateu aquele ventão? Quase morri!”. Não, elas não podem (até onde se sabe rs). Nós seres humanos temos esta capacidade de meta-observação, ou seja, de poder observar o que vivemos, explicar a experiência e até mesmo refletir e conversar sobre as explicações que criamos para uma experiência.

Mas enquanto vivemos e estamos imersos numa experiência, não temos como diferenciar se o que estamos vivendo é certo ou errado. Apenas vivemos! O erro ou acerto, é um comentário que surge posteriormente a se ter vivido uma experiência, quando comparamos a explicação de uma experiência com outra. Não é possível comparar uma experiência com outra, o que comparamos são as explicações das experiências. Percebe como isto é liberador/libertador?! O erro não existe, até que se julgue! Não podemos viver nada como erro (ou acerto), apenas vivemos, guiados pelos desejos, sentires e “quereres” que são despertados em nosso ser biológico e cultural (biológico-cultural).

Temos mais dois detalhes importantes:

  • As explicações não substituem a experiência!
  • Podemos explicar a mesma experiência de diversas formas e novas experiências nos fazem reformular explicações de experiências do passado.

Temos a capacidade inclusive de explicar a mesma experiência de diversas formas! E a explicação que damos hoje ao sentirmos, por exemplo, dor na garganta é “estou gripado”. Vamos ao médico e descobrimos que na verdade trata-se de algum tipo de alergia. Depois podemos ter uma experiência espiritual ou transcendental e descobrir (ou criar uma nova explicação sobre aquela vivência) que na verdade se tratava de um mal da alma, ou um processo de somatização relacionada ao nosso dia a dia e a nossa psique. Seja qual for a explicação, a experiência não está mais lá e não é possível recuperá-la. Todas as explicações que criamos a posteriori ou que alguém cria para nós (um médico ou terapeuta por exemplo), servem para nós desde que a aceitemos como válida:

“As explicações são reformulações da experiência aceitas por um observador”

Se o médico disser “é gripe” e aceitarmos esta explicação, então aceitamos esse explicar e nossas emoções podem inclusive se alterarem. Se ele disser “é virose”, podemos não aceitar esta explicação e nosso emocionar-se será diferente. Se ele disser “é câncer”, provavelmente teremos um peso muito maior em nossa cabeça, por que se aceitamos a explicação de alguém em algum nível, podemos começar a agir no dia a dia e colocar estas explicações como lentes em nosso viver, e as palavras resgatam emoções que construímos ao longo de nossa vida.

Seja qual for ou quais forem as explicações aceitas, a experiência não está mais lá e vamos nos relacionando com novas experiências e com as explicações de outras experiências que conservamos como válidas dentro de nós. Estas explicações abrem novas possibilidades e também por muitas vezes nos limitam.

Alguém pode explicar: “Sofri muito em meu ultimo relacionamento amoroso e nos separamos” e isto criar emoções que “fecham” seu corpo quando surge a possibilidade de se relacionar novamente com outra pessoa. Note, é a explicação de uma experiência que está gatilhando emoções que podem vir a limitar seu viver neste momento. Depois de algum tempo, esta pessoa pode viver diversas experiências de auto-conhecimento, terapias, psicanálise e dizer: “Tive um relacionamento maravilhoso enquanto durou e a separação foi o ato mais amoroso que pudemos ter um com o outro” e, a partir deste momento, com a mudança de explicação, esta pessoa pode se sentir mais aberta a outros relacionamentos.

A experiência já ocorreu, mas as explicações surgem e vão nos modelando em nossos sentires e em nossas emoções. Mas veja novamente que liberador/libertador! Experiências que virão no futuro podem alterar a explicação que damos de algo que ocorreu no passado e nos causa dor, desde que estejamos abertos a novas experiências.

Emocionar-se é…

…agir dentro de um certo domínio de ações definidas por certas disposições corporais dinâmicas!

Talvez não seja uma definição bonita ou poética que se possa dar a algo tão belo quanto o fato de “emocionar-se”. Esta é uma definição sobre a ótica da biologia que tirei da leitura de vários materiais sobre as pesquisas de Maturana, que entre outras coisas é biólogo e educador.

Ora, me peguei a observar. Esses dias fui tocar acordeon num barzinho aqui de Sorocaba. Fazia tempo que não tocava em bares e confesso que senti um certo medo misturado com uma certa timidez. Bom, na verdade percebi que estas sensações refletiam na velocidade e qualidade dos meus pensamentos. Refletiam na minha musculatura toda.. meus dedos um tanto trêmulos, uma sensação estranha nos braços e na minha face. Refletiam na forma que eu olhava pras pessoas e recriava aquela sensação e, ao mesmo tempo, tentava me sentir a vontade com fato de que iria tocar dali uns minutos. Como sempre é de acontecer, na hora do show a coisa fluiu muito bem e as emoções que senti foram muito positivas.

Depois de pequena reflexão, me perguntei até se aquela sensação desconfortável inicial não foi, de certa forma, benéfica para o momento em que entrei no palco, já que ela criou uma tensão que se transformou em muita energia na hora de tocar.

Mas perceba: quais são as disposições de seu corpo, de seus músculos e de seus pensamentos quando você está com raiva? Quando você está feliz? Quando está calmo? Quando está apressado? Quais são os líquidos e energias que te movem e quais são as emoções que você percebe?

Bom, é um estudo bem interessante este, por que até uma coisa tão certa quanto o pensamento lógico tem sua base nas emoções. Estive pensando: como planejo meu futuro se estou feliz? Com certeza é diferente de fazer qualquer planejamento com preocupações, sentindo tristeza ou raiva.

O cérebro límbico, que é constituído pelas camadas mais profundas do cérebro humano, “controla” (talvez esta não seja a melhor palavra) as emoções e a fisiologia do corpo. Esta é a parte mais antiga do cérebro de nossa espécie e recebe informações de várias partes do corpo. O Neocórtex, parte do cérebro onde se dão as cognições, se formou ao redor do cérebro límbico durante milhões de anos de evolução e sua estrutura (inclusive de tecidos) é diferente do límbico. Uma das consequencias disto é que diante de uma situação ou de uma ameaça, nosso cerébro límbico reage primeiro que o neocórtex. Bom, pelo que entendo, isto deve significar que sentimos emoções antes de racionalizar as coisas e, por consequência, nossa racionalidade é influênciada por nossas emoções.

Segundo David Servan, doutor em ciências neurocognitivas, o cérebro emocional (límbico) nos dirige rumo as experiências que buscamos e o cognitivo (neurocórtex) tenta fazer com que cheguemos lá do modo mais inteligente possível. Como recebem as informações mais ou menos ao mesmo tempo, eles podem cooperar ou competir entre si sobre o controle do pensamento, das emoções ou do comportamento. O resultado dessa interação determina o que sentimos, nossas relações com o mundo e nossos relacionamento com os outros.

Ainda segundo David Servan, a competição entre os dois cérebros, pouco importa a forma que tome, nos torna, seguramente, infelizes.

Me emociono, logo penso? A verdade é que ainda há muitas coisas a serem descobertas sobre nós, seres humanos!